terça-feira, junho 19, 2007

Tristeza...

Coração aqui mais uma vez...

Outro dia tive que apresentar um trabalho na faculdade sobre um poema. Terminei por gostar dele.
Nunca gostei de obrigações, datas, pressões, e já passei a odiar coisas pelo simples fato delas serem uma obrigação na minha vida, mas este poema foi ao contrário, ainda mais depois de perceber que eu tive uma visão dele totalmente diferente do que as outras pessoas tinham.
Todos pensavam que nele estava contido um desejo de morte, pela desilusão, melancolia, morbidez que o poeta apresenta, eu me identifiquei muito com a visão que ele tem da vida, essa coisa sem sentido, e, assim, concluí que não é necessário que em conseqüência disso haja um desejo de morte.
Eu sou uma desiludida com a vida, gosto de coisas que não são lá convencionais, me perco nas minhas fantasias, acho que o mundo da invenção é melhor que esse, acho que os livros são bem mais interessantes que a vida, acho que viver faz doer, acho as pessoas que se conformam com esse mundo banal medíocres, abomino a felicidade, mas nem por isso quero morrer.
Acho que toda essa desilusão até me faz ser mais forte pra tentar viver um dia algo que valha realmente a pena. Ou não.

Mas então, eis o poema (Gostaria de pedir às pessoas que ocasionalmente lerem isso, que deem sua opinião sobre o poema):


Tristeza

Eu amo a noite quando deixa os montes
Bela, mas bela de um horror sublime
E sobre a face dos desertos quedos
Seu régio selo de mistério imprime

Amo os lampejos, verde-azul, funéreos
Que às horas mortas erguem-se da terra,
E enchem de susto o viajante incauto
No cemitério de sombria serra

Eu amo a noite com seu manto escuro
De tristes goivos coroada a fonte
Amo a neblina, que pairando ondeia
Sobre o fastígio de elevado monte

Amo nas plantas, que na tumba crescem
De errante brisa o funeral cicio;
porque minh'alma, como a noite, é triste,
Porque meu seio é de ilusões vazio

Amo o silêncio, os areais extensos,
Os vastos brejos e os sertões sem dia
Porque meu seio como a sombra é triste
Porque minh'alma é de ilusões vazia

Amo o furor do vendaval que ruge
Das asas densas sacudindo estrago
Silvos de bala, turbilhões de fumo
Tribos de corvos em sangrento lago

Amo ao silêncio do ervaçal partido
Da ave noturna o funerário pio
Porque minh'alma, como a noite, é triste,
Porque meu seio é de ilusões vazio

Amo a tormenta, o prepassar dos ventos
A voz da morte no fatal parcel;
Porque minh'alma só traduz tristeza,
Porque meu seio se abrevou de fel

Amo o corisco que deixando a nuvem
O cedro parte da montanha, erguido,
Amo do sino, que por morto soa,
O triste dobre n'amplidão perdido

Amo na vida de miséria e lodo,
Das desventuras o maldito selo,
Porque minh'alma se manchou de escárnios,
Porque meu seio se cobriu de gelo

Amo do nauta o doloroso grito
Em frágil prancha sobre mar de horrores
Porque meu seio se tornou de pedra,
Porque minh'alma descorou de dores

Como a criança, do viver nas veigas
Gastei meus dias namorando as flores
Finos espinhos os meus pés rasgaram
Pisei-os ébrio de ilusões e amores

Tenho um deserto de amargura n'alma
Mas nunca a fronte curvarei por terra
Tremo de dores ao tocar nas chagas
Nas vivas chagas que meu peito encerra

A paz, o amor, a quietação, o riso
A meus olhares não têm mais encanto,
Porque minh'alma se despiu de crenças
E do sarcasmo se embuçou no manto

Fagundes Varela.







Atenção especial as duas últimas estrofes, diferenciadas do resto do poema.





By: Coração (simples assim).




Um comentário:

André L. Soares disse...

Boa noite! Belo texto. Aliás, não apenas esse. O blog todo é de muito bom gosto e os textos são ótimos. Assim como também ótimos os poemas escolhidos. Excelentes mesmo! Depois voltarei para ler mais. Estou sempre dando um ‘passeio geral’ pelos blogs relacionados à arte, principalmente poesia e prosa. Gostei muito do seu blog. Vou adicioná-lo ao meu blog, bem como favoritá-lo no ‘blogblogs’, para que possa visitá-lo mais vezes. Quando puder, visite também meu blog, no endereço: [ http://poemasdeandreluis.blogspot.com ]. Sinta-se à vontade... a casa é sua,... e, gostando,... por favor, também adicione meu blog e, se for o caso, ao seu ‘blogblogs’, ‘techinorati’ etc. Vamos tentar ampliar a rede de intercâmbio artístico-cultural, influenciando-nos e aprendendo mutuamente. Grande abraço!